Colunistas

Wilian Marques,

Disciplina: Dor e Prazer.

12/05/2019 07H00

Somos extremamente imediatistas, por isso, acredito, ser tão difícil manter uma atitude disciplinada e constante a longo prazo. Nós somos feitos para sobreviver, somos a soma de mais de 100 trilhões de células e cada uma delas luta, desesperadamente, para manter-se viva. Imagine-se em um acampamento. Você esta com fortes dores abdominais por causa de uma bactéria. Diarréia, vômito, febre estão acabando com sua diversão. Todo o seu sistema imunológico esta trabalhando para a sua defesa e recuperação. Ao se levantar e sair da barraca para ir ao banheiro se depara com uma onça pintada, enorme e faminta. E agora? Como seu corpo reage? Continua a gastar energia tentando combater a bactéria ou transfere toda a sua energia para o instinto de lutar ou fugir? Obviamente, como você deve imaginar, nosso cérebro entende, baseado em nossas experiências e conhecimento prévio, que o risco imediato é a onça e, portanto, vai atuar para nos afastar desse risco imediato. Imagine que você esteja com muita sede e eu lhe ofereça um copo com água com um veneno letal que poderia matá-lo em minutos. Você beberia? Provavelmente, não. No entanto, se esse mesmo veneno pudesse matá-lo somente daqui a 10, 15 ou 20 anos, talvez, a sede falaria mais alto e alguns beberiam dessa água. Isso é o que acontece com cigarro e outros hábitos destrutivos, não é?Mas, qual a relação disso tudo com a disciplina? Bem, vamos lá.
Ser disciplinado é ter a capacidade de renunciar a um prazer imediato em favor de uma satisfação no futuro. Ou seja, ser disciplinado é ter a capacidade de demonstrar ao cérebro que a dor do agora vai gerar um prazer muito maior no futuro do que o prazer imediato traria. Nós sempre fugimos da dor e buscamos o prazer. Disciplina gera, em algum grau, desconforto. Você quer assistir filmes, mas decide ir estudar. Você quer jogar conversa fora com os colegas no trabalho, mas decide fazer os relatórios que seu chefe pediu. Você deseja comer uma panelada de brigadeiro, mas decide comer uma fruta. Você gostaria de dormir até tarde, mas decide acordar mais cedo e fazer uma caminhada. Nós fugimos da dor e a disciplina gera, de alguma forma, “dor”, como posso desejar que meu cérebro aceite isso? Quem não sentir a dor da disciplina, fatalmente sentirá a dor da frustração. Ou seja, precisamos demonstrar para nosso cérebro que a dor do agora vai gerar um prazer imenso no futuro, da mesma forma preciso fazê-lo entender que o prazer imediato vai me gerar uma dor imensa no futuro.
Nosso cérebro não sabe a diferença entre o que realmente aconteceu e o que imaginamos. A aquisição de uma nova experiência pode acontecer com um acontecimento real ou imaginado. Se você pensar agora em um limão bem suculento sendo espremido em sua boca, certamente irá salivar. Foi uma experiência imaginada que causou efeitos físicos e químicos em seu corpo. Da mesma forma que a visualização do futuro desejado (resultado desejado) vai causar mudanças em suas sinapses e, consequentemente, mudanças em todo seu corpo. Se você deseja emagrecer e se imaginar realizando o que deseja com intensidade suficiente para que o pensamento se torne a própria experiência, garanto, com toda certeza, que irá desejar que o imaginado se torne realidade. Então, fará com que seu cérebro busque, como um viciado, fazer com que aquilo se concretize, dando ao corpo todas as instruções necessárias para que tenha atitudes para concretizar o resultado desejado. Comprar uma roupa cara hoje é, sem dúvidas, mais prazeroso do que guardar dinheiro para um futuro incerto. Mas, quando esse futuro deixa de ser incerto, quando você já experimentou o prazer desse resultado desejado em sua mente, comprar essas roupas agora será doloroso, pois impedirá que alcance o prazer do futuro desejado, que você já experimentou em sua mente.
Uma das melhores formas de acessar seu inconsciente e fazê-lo acreditar no que esta imaginando é através da meditação ou hipnose. Procure formas de indução que possibilitem que seu relaxamento seja de tal forma que suas sugestões possam ir direto para seu inconsciente e, ao acessá-lo, pode utilizar sua criatividade para brincar com as possibilidades do futuro que deseja. Seu corpo sentirá que algo bom ocorreu e desejará sentir isso novamente, não só na imaginação, mas também na realidade. Então, inevitavelmente, a dor do agora passará a ser uma estratégia para alcançar o prazer do futuro. Um atleta só aceita sentir as dores do treino por querer buscar o prazer da vitória no futuro. Portanto, assim como atletas, devemos buscar vitórias (resultados desejados) em nossa vida e para isso devemos demonstrar para nosso cérebro que os treinos (dor da disciplina) são necessários para alcançar uma vida extraordinária.

Wilian Marques,
Coach, Programador Neurolinguístico, Palestrante e
Oficial do Corpo de Bombeiros