Dr. Eliseu Auth

ARTIGO

Da virtude ao vício autoritário

Dr. Eliseu Auth 07/07/2026 00H02

Jornal Ilustrado - Da virtude ao vício autoritário

Gosto da história e me divirto como aprendiz da filosofia. Elas ensinam, advertem e orientam. O conceito de virtude, de Aristóteles é completo na disposição de fazer o bem e mirar a felicidade plena. Se não é inata, ela forma o caráter do ser virtuoso. Acabo de ler o livro “O povo contra a democracia”, de Yasha Mounk. Apesar do título, ele enaltece a democracia e suas regras que correm perigo nestes tempos de distopia autoritária de extremistas que subvertem a virtude no exercício do poder. Nas regras da democracia, diz ele: “(…) Um presidente ou primeiro-ministro permite ao judiciário investigar os delitos de membros do governo, em vez de exonerar o promotor público, agüenta críticas da imprensa, em vez de fechar jornais e perseguir jornalistas. Quando perde a eleição, deixa o gabinete pacificamente, em vez de se aferrar ao poder.(…) Os políticos precisam respeitar a diferença entre um inimigo e um adversário. O adversário é alguém que você quer derrotar. O inimigo é alguém que você quer destruir. (in op.cit. p. 140 e 141).

Na minha formação está o humanismo democrático, onde não há espaço para a tirania. Só a democracia garante a liberdade sob o império da lei. Vivesse no século XVIII, seria adepto do Iluminismo e teria apoiado a luta contra o absolutismo e a revolução francesa que o destronou. Certamente seria mais contido que os jacobinos Robespierre, Danton e Marat, líderes da revolução. “Est modus in rebus”, como preconizou o filósofo Horácio, lá na Roma antiga. Há medida nas coisas e um jeito justo de ser e agir. Deposto o rei, não precisavam decapitá-lo com sua Maria Antonieta, nem precisava tanta guilhotina para outros, “caça às bruxas” girondinas, fuzilamentos em massa como no “setembro negro” de 1792. O que era para ser a derrubada do absolutismo, mudança do regime, virou outro regime autoritário, intolerante e cruel na eliminação de quem dele discordasse. Esta é a minha crítica.

Não. Não tiro o mérito da Revolução francesa, destronando o absolutismo. Foi um marco histórico. O que meu humanismo não absorve, é o método da crueldade no exercício do novo poder que eliminava quem não o aplaudia. Fizessem as reformas necessárias, cortassem direitos feudais e privilégios de quem os tinha, às custas da massa sofrida. Impementassem as políticas de inclusão social do terceiro estado e promovessem o convívio fraterno. Então a revolução teria cumprido o que inscreveram na Declaração dos direitos do homem e do cidadão. Concluo que a revolução foi simbólica e teve méritos, mas a crueldade no poder, desprezou a virtude e foi ao vício autoritário.

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).