Umuarama

INFORME UEM AGRÍCOLA

Crise Hídrica: Manejo eficiente do uso da água nas propriedades agrícolas pode ajudar produtores a minimizarem os efeitos da seca

24/05/2020 07H07

Professor João Paulo Francisco

Área de recursos hídricos e agrometeorologia do Departamento de Ciências Agronômicas Universidade Estadual de Maringá (UEM)

jpfrancisco2@uem.br

De acordo com relatório do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), o déficit de chuva que atinge o Estado do Paraná varia entre 30 a 90% dependendo da região e, considerando o município de Umuarama, o déficit se encontra em cerca de 31%. Tal situação fez com que o governador do Estado, Carlos Massa Ratinho Junior, decretasse situação de emergência hídrica no Estado do Paraná pelo período de 180 dias (Decreto nº 4626 de 07/05/2020). A situação de crise hídrica preocupa também o setor agrícola, já que a água é essencial para a produção das diversas culturas.

Balanço hídrico explica queda de produtividade das culturas

Na Figura a seguir está sendo apresentado o balanço hídrico simplificado do município de Umuarama, considerando o ano meteorológico de maio de 2019 a abril de 2020, onde as partes vermelhas representam falta de água para as plantas e as partes azuis representam quantidade de água adequada para as plantas. A quantidade de chuva nesse período foi de apenas 950 mm, enquanto que a perda de água por partes das plantas foi de 1563 mm, portanto um déficit de 613 mm. Este quadro é bastante danoso à agricultura e o que piora é que neste período ocorreu uma média de 11 dias sem chuva e a interrupção de contagem se deu com chuvas pouco volumosas, cerca de 10 a 15 mm, quantidade essa insuficiente para oferecer a água na zona das raízes que permitiria uma produtividade num patamar aceitável. Esse cenário impõe muito planejamento, atenção e principalmente muita capacitação. Dentro desse cenário a irrigação se torna fundamental para garantir que o solo permaneça sem déficit hídrico e garanta a produtividade das culturas agrícolas.

Manejo da irrigação: água no momento e quantidade correta

Muitos programas de incentivos a aquisição de sistemas de irrigação surgiram nos últimos anos. No entanto, o manejo da irrigação é indispensável para o uso racional da água na agricultura, pelo simples fato de que, mesmo que o produtor tenha o equipamento de irrigação mais moderno do mercado, se ele não souber quantificar a quantidade de água a ser aplicada e nem o momento correto de fazer essa aplicação, o sistema não atingirá seu potencial.

A quantidade de água armazenada no solo na zona das raízes das plantas possui um limite superior e um limite inferior que pode ser usado pelas culturas agrícolas. À medida que a cultura cresce e extrai água do solo para satisfazer seu requisito mínimo de irrigação, a água do solo armazenada é gradualmente esgotada e, para evitar que a cultura perca rendimento produtivo, é necessário fazer a reposição de água. Quando a chuva não é suficiente para manter a umidade do solo dentro desses limites, entra em cena a prática da irrigação.

No entanto, é preciso que o agricultor e extensionistas rurais saibam como trabalhar esses dados e transformá-los em informação. Isso só acontecerá com capacitação para usar melhor essas informações, que se baseiam em quantificar a quantidade de chuva e a quantidade de água de evapotranspiração, para se conhecer a necessidade de reposição de água.

Enquanto estimativas apontam para redução na safra do milho safrinha no Estado do Paraná em virtude da estiagem recorde que presenciamos, um manejo eficiente da irrigação pode ajudar os produtores a não apresentarem quedas de produção.

As imagens a seguir apresentam milho safrinha irrigado e milho safrinha sem irrigação em área experimental do Departamento de Ciências Agronômicas da UEM. É fácil perceber um desenvolvimento mais vigoroso das plantas irrigadas quando comparadas às plantas não irrigadas.

O objetivo da irrigação é fornecer água às plantas quando o solo se apresenta em condições de deficiência de água no solo e a aplicação realizada da maneira correta garante um uso eficiente da água na propriedade agrícola e sustentabilidade no uso desse recurso.

Contornando o período de estiagem

O grande desafio é “segurar” a água dentro da bacia hidrográfica, principalmente quando se tem chuvas com grandes volumes. Para isso é importante ter ações fortes na conservação do solo e da água, de forma que a chuva possa infiltrar no solo, não escoar superficialmente, ir para além da zona das raízes, promover a recarga dos lençóis freáticos e garantir uma maior vazão dos rios em período de estiagem. Estas práticas conservacionistas tornam os agricultores além de produtores de alimentos, também produtores de água que irá garantir o abastecimento de água para a irrigação e para dessedentação de pessoas e animais.

Dentre as práticas que irão minimizar consideravelmente os efeitos da seca podemos destacar a rotação de culturas, que consiste em alternar, de forma ordenada, diferentes espécies vegetais em determinado espaço de tempo, na mesma área e na mesma estação do ano. Merece destaque também o sistema plantio direto, caracterizado por técnica de cultivo onde não se faz aração e gradagem da área de plantio. Com o revolvimento mínimo do solo, a superfície permanece cobertura por resíduos vegetais das palhadas, que apresenta como principal benefício a maior manutenção da umidade do solo.

Desenvolver a resiliência aos eventos extremos climáticos é o grande desafio da atualidade. Planejar, armazenar e usar os recursos hídricos exige instrumentação, investimento e muita capacitação e conhecimento técnico.

Professor João Paulo junto a estação meteorológica da UEM/Umuarama