Direito em Debate

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

“Conspiração de silêncio”: desemprego, fome e violência

14/04/2019 07H35

Buda – o iluminado – nasceu em uma família abastada de reis e rainhas e, durante muitos anos foi cercado por cuidados especiais para que não tivesse contato com a humanidade. Diziam os sábios que se ele ficasse no palácio se tornaria um rei famoso, conhecido no mundo inteiro. Se deixasse o palácio de seu pai, ele se tornaria um sábio que tiraria a venda da ignorância existente no mundo. Seu pai, desejando que ele fosse um rei famoso, ofereceu-lhe cuidados e conforto que a casa real podia proporcionar, com o objetivo de desviar sua atenção das misérias existentes no mundo. Certo dia, porém, quando já adulto, ele quis ir a um parque. Lá, viu um idoso trêmulo e enfraquecido. Numa segunda vez, viu um doente tremendo de febre. Na terceira, um cadáver jogado, já em decomposição. E em outra vez, chamou-lhe a atenção um monge, cuja expressão facial era de sublime tranquilidade, como que isolado e acima de toda miséria humana. As imagens do que a doença e o sofrimento podem trazer ao ser humano o impressionaram profundamente. Isso o inquietou de tal forma, que ele sentiu repugnância da vida palaciana. Abdicou de suas posses e direitos e fugiu dos domínios do reino de seu pai.

No Brasil e no mundo, o desemprego, a fome e a violência passaram a ser tema proibido, como se houvesse uma “conspiração de silêncio” de todas as autoridades. É de Josué de Castro (pesquisador) a expressão acima. Ele afirma que os governos arrecadam bilhões ou trilhões de dólares, mas pouco ou quase nada é destinado para combater a fome, o desemprego, o analfabetismo e a proliferação da miséria. Em contrapartida, investem milhões ou bilhões de dólares em tecnologia e armamento para a guerra, com vistas à proteção dos interesses econômicos de grandes conglomerados financeiros.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê que a dignidade humana, os direitos humanos e as liberdades fundamentais devem ser respeitadas em sua totalidade. Assevera, também, que a promoção da saúde e do desenvolvimento social para a sua população é objetivo central dos governos, partilhado por todos os setores da sociedade, que devem ampliar: a) o acesso a cuidados de saúde de qualidade e a medicamentos essências; b) o acesso à nutrição adequada e água de boa qualidade; c) a melhoria das condições de vida e do meio ambiente; d) a eliminação da marginalização e da exclusão de indivíduos por qualquer que seja o motivo; e, por fim, e) a redução da pobreza e do analfabetismo.

Reformas estruturais, em nosso país, estão em andamento nas casas legislativas. O país está parado. Estamos vivenciando momento político crucial para a melhoria da condição de vida das futuras gerações. Importante que todo cidadão consciente do dever ético e moral, tome partido para fazer aprovar as leis que visam promover justiça social e distribuição equitativa de renda. A crise econômica e social que aflige o mundo inteiro, e, principalmente o Brasil, não pode e não deve ser vista como “marolinha” pelos brasileiros. O nosso “silêncio”, à curto prazo, desencadeará séria revolução social, muito mais grave do que aquela que já está em curso. Se isso acontecer, a guerra civil e o êxodo urbano serão inevitáveis. Veremos famílias inteiras de volta ao campo, não para gerar riquezas, mas para retirar da terra, com o suor do seu rosto, o alimento necessário para a sobrevivência. Sendo assim, a disputa pela terra será violenta e sangrenta.

O que intrigava Buda era o sofrimento da humanidade. Ele descobriu que a causa de todo sofrimento está na cobiça e no desejo. A descoberta de Buda nos aflige até hoje. Muitos ao nosso redor vivem vida de rei, cheia de privilégios. Será que estamos preparados para abdicar da vida palaciana?

A solução do problema está nas mãos dos governantes. Somente com visão coerente e articulada dos governos, aliado à capacidade tecnológica em produzir alimentos e gerar riquezas, será possível iniciar a luta pela erradicação da miséria no mundo e proporcionar vida digna a todos os povos.

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Advogado no Paraná

Professor do Curso de Direito da UNIPAR

iraja@prof.unipar.br