Umuarama

HISTÓRICO

Casa Santa Catarina de Umuarama. Um adeus

31/08/2020 11H04

Prédio histórico está sendo demolido

“Um dos maiores filósofos da era moderna escreveu que “tudo que nasce é digno de perecer.” O fim da Casa Santa Catarina, que fechou suas portas em 2016 e que agora tem seu prédio parcialmente demolido para a futura instalação de outro empreendimento, sai agora da paisagem urbana de Umuarama. Mas não sai dos anais do desenvolvimento econômico da região e da trajetória do comércio local, nem é apagada da saga dos pioneiros, nem da memória de quase três gerações dos habitantes desta cidade, não apenas porque foram eventualmente clientes, mas porque a tinham como uma referência cotidiana, um marco familiar, um registro incontornável da própria história da cidade.

Nos tempos difíceis da instalação da loja, Umuarama era pouco mais do que algumas ruas e avenidas abertas em sua terra arenosa e algumas casas dispersas, a maioria de madeira, mas também eram tempos gratificantes, aqueles em que as pessoas cresciam junto com a cidade que iam criando. Como eram poucos moradores, muitos se conheciam, participavam do esforço conjunto de ir moldando não apenas fisicamente a cidade, mas especialmente iam delineando contornos aos hábitos, costumes, aos valores que foram produzindo a cultura deste povo, do povo que nos tornamos, com nossas tradições, nossa memória, nossa história.

Uma empresa de natureza familiar, fundada por Paulino Fontana, em 1960, junto com alguns parentes-sócios, e a partir do fim da mesma década tornada propriedade exclusiva e administrada desde então pelo fundador, sua esposa Diamantina e seus filhos Renato, Roberto e Rovaldo. Um comércio que vendia um pouco de tudo, em sintonia com uma cidade recém instalada, numa região que carecia de bens, serviços e mercadorias de toda ordem. Manteve, com pequenas variações, este caráter, de uma loja que vendia “de tudo”. Certamente, junto com a cidade e os hábitos e padrões de consumo, alterou linhas de produtos e tipos de mercadorias, mas preservou como uma de suas características atender clientes de vários perfis socioeconômicos, tanto os de menor quanto os de maiores rendas.

Embora tenha desenvolvido atividades em vários setores econômicos, sempre com muita intuição e natural simplicidade, marcas distintivas de sua personalidade, foi no comércio que Paulino Fontana realizou-se plenamente. Fez do comércio não apenas meio de vida, opção profissional, mas uma expressão orgânica, uma obra de arte que mesclava discernimento de detalhes e organização do conjunto, combinando capacidades, valorizando cada componente do processo.

Sua prática diária, acompanhado pela esposa Diamantina, nunca esmorecida até o fim de seus dias, era a presença ativa no ambiente de trabalho, onde o ato de comércio não era apenas um exercício de troca de mercadorias entre vendedores e compradores, mas a expressão de uma relação entre pessoas, mediada pela consideração e muitas vezes pelo afeto.

Por razões como estas, bem compreendemos um sentimento de perda de algo, de distanciamento de um tempo que o fechamento da loja evoca. Sem dúvida somos os primeiros a reconhecê-lo, a senti-lo e vivenciá-lo. Mas também temos noção de que nada é para sempre; os ciclos econômicos vão definindo novos contornos de produção e consumo; novas configurações e formatos de comércio vão surgindo, outras opções se apresentam.

Sendo uma empresa familiar, com o desaparecimento dos pais fundadores, a aposentadoria dos filhos e a ausência de herdeiros com vocação comercial, o fechamento da loja praticamente se impôs como um curso incontornável. Há quatro anos tínhamos negociado com uma grande rede varejista internacional a instalação de uma de suas unidades em nossas dependências. Infelizmente sua estratégia de expansão foi interrompida pelo encerramento de suas atividades no país. Sempre estivemos abertos a outras possibilidades quanto ao uso de nossa área ou instalações, o que agora se concretiza com o interesse de uma rede de produtos farmacêuticos.

É certo que teremos saudades e lembranças de tantas outras coisas daquela época memorável, quando a abertura da Casa Santa Catarina era um indicador promissor da confiança no crescimento de Umuarama. Mas antes de lamentar melancolicamente o tempo transcorrido, deveríamos celebrá-lo como uma conquista; uma conquista daqueles que souberam viver honradamente, que aproveitaram a existência para dignificá-la com o trabalho, com a formação de famílias, com as amizades, com a participação comunitária e cívica, tornando-se artífices do desenvolvimento e credenciando-se a fazer parte da memória e da história desta cidade que tanto nos orgulha.

Encerramos uma etapa, mas não nossa relação com Umuarama; aqui permanecemos na condição de cidadãos, moradores e proprietários do mesmo imóvel, mantendo-nos assim vinculados a esta cidade, onde juntos crescemos e criamos nossos filhos.

À Umuarama, aos nossos clientes de todos estes quase 60 anos, a nossos funcionários, a quem tributamos o reconhecimento pelo êxito que juntos tivemos, e à gente generosa e calorosa de nossa cidade, que tivemos a honra de servir por tanto tempo, nossos sinceros respeitos e agradecimentos”.

Umuarama, agosto de 2020

Assinado por: Os proprietários da Casa Santa Catarina

Renato, Roberto, Rovaldo e Remy Fontana