Dr. Eliseu Auth

23/03/2021

Basta de ódio!

22/03/2021 20H32

Quando acesso redes sociais, me impressiono com o ódio que alguns destilam. Não suportam divergência de idéias e concepções, partindo para a agressão. Aí vomitam juízos condenatórios sem fundamento algum. Não somos mundos antagônicos, mas seres pensantes na busca do melhor caminho e homens que gostam de rir e chorar, como Lesing pôs na boca de Filotas.

Há espaços de consenso que não toleram ódio nem agressão. Na dialética das idéias, diz a lógica, que fora da regulamentação da vida em sociedade, que é o Direito, não há segurança nem justiça. Simples assim.

O mundo já foi pior. Mais tacanho e mais odioso. Consolemo-nos, pois. Na seara do Direito que andei, seja nas salas de aula ou nos julgamentos, logo me fiz abolicionista e busquei a humanidade por luz. Combati visões de ódio, vingança e sadismo em penas longas e desumanas. Aos meus queridos alunos aconselhei obras como “O espírito das Leis”, “A Luta pelo Direito”, “Dos Delitos e das Penas”, “Vigiar e Punir”, “Raízes do Crime”, “Contrato Social” e outras para moldar uma visão humana que tivesse o justo como suprema razão de ser. Nesse intento, trazia à baila julgamentos de puro horror, bem ilustrados por Michel Foucault, para mostrar como não devia ser. Volto a um deles, o do assassino de Guilherme de Orange, em 1584. Mirem a barbárie:

“No primeiro dia, ele foi levado à praça, onde encontrou uma caldeira d´água fervente, onde foi enfiado o braço com o qual desferira o golpe. No dia seguinte, o braço foi cortado, e tendo caído aos seus pés, chutou-o lá de cima do cadafalso sem pestanejar; no terceiro dia foi atenazado na frente, nos mamilos e na parte dianteira do braço; no quarto, foi igualmente atenazado nas nádegas; e assim, consecutivamente, foi martirizado por 18 dias; foi posto na roda e atado. Ao fim de seis horas, ainda pedia água, que lhe negaram. Finalmente, pediram ao magistrado que autorizasse liquidá-lo por estrangulamento para que sua alma não desesperasse e se perdesse” (In “Vigiar e Punir”, 6.ª ed. – pág. 50).

Aí, só resta terminar bradando aos céus: Basta de ódio!

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).