Cultura
De origem remota, o pilão de madeira sempre esteve presente ao longo do tempo na cultura dos povos em vários pontos do mundo. No período do Brasil-Colônia foi um dos mecanismos que impulsionou a transformação da produção agrícola e está presente até hoje nas cozinhas e decorações de casas.
Em Umuarama a cultura do pilão se mantém viva em um rancho humilde de madeira antiga, sem pintura e de chão batido na estrada Jacuí. Os artefatos são produzidos pelo artesão Marcelo Petrosini, de 50 anos, que segue os caminhos de seu avô. “Meu avô fazia pilão para levar sustento para família. Ele veio da Espanha para Argentina e depois em São Paulo eu ajudava ele, quando eu tinha oito anos”, disse o artesão.

O trabalho é pesado e no rancho, Marcelo, de pés descalços, torneia os grandes troncos com destreza e concentração. “Não pode perder a concentração quando está trabalhando com o pilão no torno. Tem pilão de madeira maciça com mais de um metro de altura, qualquer deslize pode provocar em acidente grave”, ressaltou.
O artesão aproveita toda a árvore que encontra caída e produz pilões de vários tamanhos e que são vendidos na Feira do Produtor de Domingo, ao lado do Bosque dos Xetá, em Umuarama. Petrosini também leva sua arte para São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. “Acho que já passei por 350 municípios do Paraná, além de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. Tem pilão feito por mim na França, Espanha, Portugal e demais países. Por onde vou levo o nome de Umuarama com orgulho”, falou o artesão que vive uma vida simples com a esposa e dois filhos.

Conforme o entrevistado, o pilão foi o primeiro equipamento para beneficiamento de alimento, como arroz, canjica, colorau entre outros tantos. Hoje o pilão ainda é utilizado para trabalhar os alimentos, informou Marcelo Petrosini. “Com o aquecimento das comercializações das chácaras a venda do pilão é boa aqui em Umuarama. Das pessoas que compram comigo, 90% das pessoas usam o equipamento para trabalhar o alimento e só 10% como peça de decoração”, noticiou.

Com a habilidade de mais de 20 anos confeccionando pilão, Marcelo disse que consegue produzir até 10 pilões por semana, mas existe a dificuldade da madeira. “Precisava de um apoio do município para arrumar a madeira. Só trabalho com árvores que caíram, não derrubo árvore para produzir e para fazer pilão tem que ser madeira de lei, para aguentar o baque do socar. Maioria das vezes vou buscar árvores em Mariluz, Maria Helena, Tapejara. Vou longe para conseguir matéria prima”, explicou.

Um dos pratos da cozinha brasileira feitos no pilão e muito apreciado é a paçoca de carne e Marcelo deu sua receita. “Já andei muito pelo Brasil vendendo pilão desde criança. Dormia na estrada e muitas vezes nem comida tinha direito. Nessas andanças percebi que paçoca de carne é muito apreciada no Nordeste e no Rio Grande do Sul. Minha receita é com sobra de churrasco. Pega essa carne refoga com cebola e depois alho. Coloca a carne no pilão com os temperos da sua preferência e começa a socar com farinha de milho, depois adiciona farinha de mandioca. É muito bom”, disse.

Para a confecção do pilão utiliza-se troncos de madeiras duras – como ipê, a maçaranduba, a peroba, a canela preta, o guatambu e o limoeiro – que antes eram escavados com fogo, e, sua haste (denominada mão de pilão), era feita com um pedaço aparelhado dessas madeiras. A altura de um pilão variava entre 30 e 70 cm e, uma haste, média de 60 cm a 1,2 m. No tocante à cultura rural brasileira, pode-se afirmar que todas as casas nas zonas rurais usavam algum pilão. Os pesquisadores afirmam que essa ferramenta deve ter sido copiada dos árabes. Em 1638, nos terreiros próximos às portas das cozinhas, já havia registro do emprego de pilões, nos preparos da farinha de mandioca e óleo de semente de gergelim, em substituição ao azeite de oliveira.

