Dr. Eliseu Auth

ARTIGO

Aquela capa de chuva

Dr. Eliseu Auth 19/05/2026 00H02

Jornal Ilustrado - Aquela capa de chuva

Quem se criou na roça, sabe o sofrimento que é tirar o leite das vacas em dia de frio e chuva. E pra piorar, ter que levantar quando ainda está escuro. Isso era ofício do dia a dia de mamãe e das minhas irmãs Vera e Maria. Nem capa de chuva as coitadas tinham para se proteger. Imaginem isso no inverno brabo do sul, onde nasci e me criei. Mesmo não gostando dele, o frio faz parte da minha vida. Vi potreiros brancos de geada e sangas fumegantes cortando estradas e aquecendo os pés descalços dos meninos pobres que iam à Escola.

Era 1966. As férias tinham acabado e voltei ao Seminário de Viamão, pertinho de Porto Alegre. O dinheiro era curto, mas algo me cobrava pelo sofrimento da minha gente que nem capa de chuva tinha para se proteger do frio na tirada do leite em dias de chuva. Fiz o propósito de comprá-la um dia e presenteá-la aos meus, acontecesse o que quisesse acontecer.

Os seminaristas de Viamão iam muito a Porto Alegre. Todo dia tinha gente indo e vindo. Uns para compras, outros para cuidar da saúde ou coisa parecida. Para voltar, pegavam o ônibus em frente ao edif. “Protetora” ao lado do Porto. A turma do comércio de rua e a malta que vendia gato por lebre, ia lá, à espreita de freguesia garantida para negociar suas bugigangas.

Dia desses, lá estava eu, cinco réis no bolso e aguardando o ônibus para voltar ao seminário. A passagem custava dois pilas. Sobravam três no bolso. Não tardou e apareceu um rapazote falante, vendendo uma capa de chuva. Olha o negócio aí!!! Custa noventa, vendo por oitenta. Nem olhei, só tinha três pilas no bolso. Aí o esperto foi baixando para setenta, sessenta, cinqüenta, quarenta e parou nos 30, quando apareceu um segundo gajo que se fez surpreso pelo preço que dizia baixo demais. Por trinta, o que vale noventa, esse cara deve estar louco, sussurrava. Até me deu uma quase tristeza por não ter os trinta, mas quietei porque sabia o que tinha na algibeira. Eu só dizia que estava caro. Não é que o esperto baixou o preço para cinco pilas. Agora é comigo, pensei. Ofereci três, todo o dinheiro que eu tinha e ele topou a parada.

Peguei minha capa e me fui feliz da vida. Aí, soube do colega Aniceto Sturm que a capa era plástico podre, rasgava fácil e custava dois pilas ali perto do “Protetora”. Depois de um mate, apareceu o colega Hélio Hartmann se gabando que fizera um baita negócio. Comprara uma capa de chuva de noventa por 30. Na hora, contei o acontecido e a gente riu para não chorar. Ainda hoje, às vezes, ainda me pego rindo ao lembrar aquela capa de chuva.

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).