Do campo à faculdade

Por mais de cinquenta anos, o sonho de estudar ficou adormecido no coração de Helena de Oliveira Costa, hoje com 66 anos. Nascida em 4 de novembro de 1958, no município de Queiroz, interior de São Paulo, Helena veio ao mundo no campo, no seio de uma família grande – eram 14 irmãos ao todo, sete homens e sete mulheres, embora duas irmãs tenham falecido ainda jovens.
A infância foi marcada por mudanças e desafios. Até os três anos de idade viveu em Queiroz, mas logo a família mudou-se para Quintana, também em São Paulo.
MUDANÇA PARA O PARANÁ
Aos oito anos, a vida tomou outro rumo: o pai comprou um sítio no Paraná e a família se mudou para Guaporema. “Foi um grande estranhamento, porque era tudo muito diferente do interior de São Paulo. Lá havia muita lavoura e pasto, e em Guaporema conheci as matas. Lembro até hoje do impacto. Quando ouço o canto da rolinha ‘fogo-apagou’, me recordo daquela época”, relembra emocionada.
Desde cedo, Helena aprendeu que o trabalho seria seu companheiro de vida. Com apenas sete anos já ajudava na lavoura. “Meu pai mexia com batatinha, e uma das primeiras coisas que fiz foi puxar a rama da batatinha, quando ela secava, para depois colher”, conta. Paralelamente, frequentava a escola – começou a estudar em Quintana, onde fez a primeira série e parte da segunda, antes da mudança para o Paraná.
Helena permaneceu em Guaporema até 1980, ano em que se casou, aos 21 anos. “No começo, morei seis meses em um sítio em Guaporema chamado Água da Confusão, que era do meu sogro. Depois nos mudamos para Bernardelli, distrito de Rondon, onde ficamos por quatro anos, trabalhando na roça”, lembra. Seu marido tinha dois filhos de um relacionamento anterior, e juntos criaram a família no campo.
A vida seguiu de mudança em mudança. Em 1985, o casal vendeu o sítio de Bernardelli e comprou uma pequena propriedade em Tuneiras do Oeste, a apenas dois quilômetros da cidade. Três anos depois, venderam tudo novamente e se mudaram para Iretama, região de Campo Mourão, onde adquiriram sete alqueires de terra no distrito de Água Fria, próximo às Termas de Jurema. Ali viveram de julho de 1988 a julho de 1990, quando mais uma vez decidiram recomeçar, desta vez em Tapira, no distrito de Ouro Verde.
Foram 14 anos em Tapira, onde Helena enfrentou um de seus maiores desafios: em 2004, ficou viúva. “Depois do falecimento do meu marido, deixei o sítio com meu enteado mais velho, que morava perto, e fui morar na cidade de Nova Olímpia. Mais tarde, vendemos o sítio e dividimos entre mim e os dois enteados. Com minha parte, comprei três alqueires entre Maria Helena e Nova Olímpia, próximo ao bairro São Miguel, onde moro até hoje”, conta.

A nova chácara era apenas pasto quando chegou. Helena construiu uma casinha simples, cercou, colocou água e energia. Passou a plantar milho, horta, criar galinhas e vender ovos e frangos. “Fiquei ali cerca de três anos e meio até me casar novamente, em 2012”, lembra. Dessa vez, foi viver na cidade com o novo marido, que tinha uma pequena fábrica de móveis. Ficou lá por três anos e meio, mas, quando os filhos dele saíram de casa, decidiram voltar para a chácara.
Hoje, Helena vive do leite do gado e da produção de queijos, requeijões e mussarelas, além da aposentadoria rural e da venda de cosméticos. Mas, apesar da vida no campo, o sonho de estudar nunca deixou de pulsar dentro dela.
“Parei de estudar em 1970, na quarta série. Naquele tempo, no sítio só havia escola até ali. Para continuar, tinha que ir para a cidade, mas poucos iam. Sempre tive vontade de estudar, mas meu marido não aceitava que eu estudasse. Ele dizia que mulher dele tinha que ficar em casa. Quando fiquei viúva, pensei em voltar, mas ouvia as pessoas comentarem que seria estranho estar no meio dos jovens. Isso me desanimou”, relembra.
O incentivo para recomeçar veio da enteada. “Ela me dizia: ‘Você sempre quis estudar, agora pode’. Isso ficou martelando na minha cabeça”, conta. Foi também nessa época que começou a ter contato com a internet.
Mesmo com conexão fraca, passava horas assistindo vídeos motivacionais de Marcos Trombetta, sentada embaixo de um pé de limão, onde o sinal pegava melhor. “Ele foi um dos meus incentivos. Fiz o curso ‘Como Sair do Buraco’, e foi ali que caiu a ficha: eu precisava voltar a estudar.”
PRIMEIRA TENTATIVA VEIO COM FRUSTRAÇÃO
A primeira tentativa, no entanto, terminou em frustração. Helena caiu em um golpe ao pagar um curso de ensino médio a distância em Tatuapé. “Paguei cinco parcelas de mais de R$ 200, mandei todos os documentos, fiz as aulas, mas nunca recebi o certificado. Depois descobri que era falso. Foi muito triste. Mas eu não desisti.”

CONCLUSÃO DO ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO
Determinada, buscou seu histórico escolar em Guaporema e se matriculou em 2020 na Escola Duque de Caxias, em Nova Olímpia. Em plena pandemia, estudou de forma online, enfrentando todas as dificuldades que a tecnologia impunha. Concluiu o ensino fundamental com um provão e, em seguida, iniciou o ensino médio pelo EJA. Foram dois anos e meio de esforço até a conclusão, em 2022.

SONHO DO ENSINO SUPERIOR
Mas o sonho era maior: queria ir para a faculdade. E foi assim que, em julho de 2023, ingressou no curso de Psicologia na UniALFA, em Umuarama. Hoje, cursa o terceiro ano.

O caminho não foi fácil. Em fevereiro de 2024, por exemplo, sofreu um grave acidente de carro ao voltar para casa após um dia de estudos. “O carro deu perda total. Tive ferimentos no rosto e no pé, precisei de tempo para me recuperar. Mas continuei firme. Não ia desistir depois de ter chegado tão longe.”
Apesar das dificuldades, Helena se sente acolhida no ambiente acadêmico. “Meus colegas de classe são maravilhosos. Sempre me ajudam com os trabalhos, atividades e até mesmo na hora de entender o conteúdo. Os professores também têm uma paciência enorme, explicam tudo com calma. Esse apoio faz toda a diferença. É como se eu tivesse uma grande família na faculdade, que me incentiva a continuar, mesmo nos dias mais difíceis”, conta emocionada.

“É QUESTÃO DE AUTOESTIMA”
Quando fala sobre o futuro, Dona Helena se emociona. Ela conta que não estuda apenas para ter um diploma, mas para realizar um desejo profundo de provar para si mesma que é capaz. “Meu maior sonho é terminar esse curso para poder olhar para mim mesma e dizer: eu consegui. É uma questão de autoestima, de superação. Não importa a idade, eu quero mostrar que posso chegar até o fim”, disse com os olhos marejados.
E é exatamente isso que motiva Helena a continuar, mesmo diante do cansaço, das dificuldades tecnológicas e da rotina puxada. Sua história é um lembrete poderoso de que nunca é tarde para recomeçar, que a educação transforma vidas e que a realização pessoal não tem prazo de validade.
A mensagem que deixa para quem pensa que já passou da hora de recomeçar é clara e cheia de esperança: “Nunca é tarde. Enquanto temos vida, temos oportunidade. O que importa é ter desejo e vontade de realizar”, concluiu.

O diretor acadêmico da UniALFA, Prof. Roberto Catarin, celebrou a trajetória da aluna:
“A trajetória de Dona Helena é um verdadeiro exemplo de determinação e inspiração para todos nós. Sua coragem em retomar os estudos e realizar o sonho de cursar Psicologia reforça a convicção de que nunca é tarde para aprender e transformar a própria história. Em nome da UniALFA, agradeço pela confiança depositada em nossa Instituição e celebramos, junto com ela, cada conquista acadêmica. Que sua caminhada continue iluminando e motivando outros a também acreditarem no poder da educação.”
