Dr. Eliseu Auth

Alto lá, Truculência!

23/06/2020 07H42

Não vou falar do Queiroz que prenderam, das “rachadinhas” que põe no bolso dinheiro público, de sonegação fiscal, crimes das milícias e dos extremistas radicais que querem a ditadura. Reflito com o ilustrado leitor do “Umuarama Ilustrado” sobre a truculência policial. Uma coisa por demais.

Polícia é importante e necessária. Há bons policiais que são a maioria. A minha vida é testemunha disso. Sempre que critiquei abusos, notadamente nas aulas que ministrei e nas letras que escrevi, fiz homenagem à polícia que protege. E sublinhei a imagem que quero carregar comigo: Um policial pegando na mão de uma criança para levá-la ao outro lado da rua.

Pois é. O que me atormenta é a truculência policial que campeia às soltas. Aqui e mundo afora. É a ela que digo: Alto lá! Inda bem que não passou a “lei do abate”, onde quiseram dar excludente de ilicitude para policial que atira no cidadão alegando medo de tumulto ou imaginando que o alvejado estava armado. Isso seria autorização para matar. Há alguns dias, um trabalhador aqui de perto se queixou que foi abordado por policiais que estavam em carros descaracterizados. Tinha um colega na garupa da moto e não viu a ordem de parar. Aí foi fechado por dois carros de onde desceram policias encapuçados que lhe encostaram arma na cabeça. Depois recebeu chutes enquanto o xingavam de ladrão e vagabundo. Abordar é missão policial e não se pede que o façam com voz aveludada, punhos de renda e rosas nas mãos, mas cabe respeito. O rapaz vestia roupas sujas pelo trabalho da roça.

Semana passada dois meninos negros, Guilherme em São Paulo e João Pedro no Rio, foram assassinados de forma covarde. Um atirado pelas costas e o outro seqüestrado em frente à casa da avó por dois homens armados. Em São Paulo um sargento foi preso. No Rio, em um dos carros blindados da operação policial estava o delegado que apura o crime. Aí não querem que cite Vinicius Bittencourt em “O Criminalista”: “A lei não interessa à polícia. É apenas um instrumento para absolver amigos e condenar desafetos. Pé de galinha não mata pinto… Ressalvada a hipótese de clamor público, inquéritos contra policiais são sempre feitos à moda da casa” (p. 142, na minha anotação). Há exagero, mas os protocolos da polícia precisam vestir a roupa da civilização. Então, alto lá, Truculência!

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).