ARTIGO

A vida me ensinou ver os fatos e o sentido que escondem. Há uma crise entre ministros do Supremo Tribunal Federal que precisa ser resolvida dentro da lei. A imprensa amontoou editoriais e pitacos, atacando a instituição, como se ela fosse um problema que nunca foi e não é. Não vejo acaso nesse quase estertor de anarquismo que flerta com o extremismo. Ali, a hipocrisia tem horror à ordem e à lei, no discurso fácil da farsa que é a liberdade sem limites, onde quem pode mais, chora menos. Se há coisas a corrigir no Supremo, e há, a crise desvendou um embate ideológico entre ministros democratas ou não.
Sim. A crise no Supremo existe e não é o fim do mundo. Ele merece respeito como guardião da Democracia que está em nossa Constituição que precisa dele para garanti-la e assegurar a nossa liberdade sob o manto da lei.
A confusão que se instalou com o ministro André Mendonça expondo desafetos seus como o colega Alexandre de Moraes, o Procurador-Geral Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, chefe da Polícia Federal que ousou afastar, sem apontar indecência de quem quer que seja. Isso virou alimento para a histeria dos Catões da moral. Deu no que deu. Na tentativa de cuidar da crise interna, o presidente do STF fez uma apressada reunião com os ministros, sendo suspensa no pedido de vista do Ministro Flávio Dino que apontou nulidades no procedimento, exigiu garantias constitucionais, fatos sem meras ilações e o direito de defesa de quem se queria cortar a cabeça. Fez bem o Ministro que botou ordem na casa e impediu um novo processo kafkiano.
Todo esse imbróglio teve origem no banqueiro do Banco Máster, Daniel Vorcaro que, mesmo antes de ser preso, assediava Deus e o mundo, para se beneficiar. Bancou políticos, distribuiu dinheiro, deu festas e tentou ministros. A questão é: enquanto ninguém sabia das ilegalidades, conversar com o banqueiro, indecência não era. Ministros não são vestais e nem carmelitas enclausuradas. O que não pode é ser subornado e favorecê-lo em julgamento.
Não faço prejulgamento, mas intrigam as razões do Mendonça em jogar no ventilador o nome de pessoas honradas, sem apontar quaisquer improbidades reais. “Da mihi factum, dabo tibi ius”, (dá-me o fato e te darei o direito), diz o juiz no brocardo jurídico. Cadê os fatos? Não gostaria de crer que Mendonça fez o que fez por discordar de quem condenou os golpistas que tramaram contra a Democracia, botando-os na cadeia. A imprensa deveria atentar para o todo, olhar os fatos como são, no aguardo da consertação do que precisa ser consertado. Se a nossa Constituição é democrática, e é, alto lá! O Supremo é seu guardião, continua instituição imprescindível e merece respeito!
(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).