Colunistas

Eliseu Auth

A volta de Castro Alves

07/05/2019 08H00

Lá atrás, no segundo quartel do século 19, Castro Alves escreveu poemas inigualáveis. Num deles, “O livro e a América” vaticinou assim: “Oh! Bendito o que semeia livros à mão cheia e manda o povo pensar! O livro, caindo n´alma, é germe que faz a palma. É chuva que cai no mar”. E concluiu que o novo mundo sentiria nos músculos a seiva do livro fazendo o porvir.
Gosto tanto de sua obra que decorei seu “Navio Negreiro” que meus alunos de ginásio declamavam em forma de jogral. O saudoso Candinho, criador da UNIPAR, me fazia declamá-lo em encontros de professores e amigos da Universidade. Castro Alves teve uma mãe preta que o amamentou. Foi ela que lhe contava as histórias de seu povo escravizado. Quem o lê, varre preconceitos e se abastece dos mais elevados princípios de humanidade. Esse gênio que viveu por apenas 24 anos soube como ninguém dar forma aos seus poemas. Culto, lido e informado, botou as palavras certas no lugar certo. E nelas fez brotar extraordinárias mensagens. Se foi artesão de palavras, também foi um mestre indignado que denunciou as injustiças do seu tempo. Do continente negro que via seu povo arrebatado pela escravidão escreveu em “Vozes da África”: “Meus filhos – alimária do universo. Eu – pasto universal”.
Na metáfora da seiva do porvir o vate baiano queria muitos livros nas mãos do povo. Livros à mão cheia para toda a sua América. Livro é idéia, pensamento, raciocínio, estudo, pesquisa e cultura. Ele faz pensar e pode libertar nações. Queria ver uma América livre, instruída, independente e desenvolvida. Esse era o sonho do menino “Cecéu” que se tornou o maior dos poetas. Isso tudo me veio à mente quando vi que há um movimento que menospreza universidades, ciências humanas, sociologia e filosofia. Coisa dos atuais encarregados da educação neste país. É um caminho na contramão da história que faz gente ficar angustiado. E desejar a volta de Castro Alves.

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).