Colunistas

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

A democracia brasileira conquistou mais um grau de amadurecimento, mas os desafios continuam: é preciso não se admitir como verdadeiro tudo que vem com cara de verdade!

03/11/2018 13H34

É de René Descartes a célebre frase “Penso, logo existo”. Para chegar a esta proposição ele estipulou primeiramente duvidar de tudo o que pensava, sentia, sonhava, etc., e colocar tudo como sendo falso. A única convicção, porém, que ele não podia estabelecer como falsa era o ato de duvidar. Como o ato de duvidar está no pensamento, ele também não podia duvidar da verdade sobre o ato de pensar. Logo, o pensar era algo verdadeiro. E o pensar somente poderia ocorrer por algo ou alguém que seja real, que exista. Assim, o pensar e o existir andam juntos. Por estas razões a atividade do pensar leva indubitavelmente à certeza da existência.

Novo tempo se aproxima. A renovação da classe política e na matriz ideológica da maioria dos novos legisladores e governantes já é realidade. Todavia, não podemos descuidar dos rumos da política e da condução dos destinos da nação. A Constituição Federal assegura direitos e garantias fundamentais aos cidadãos que precisam ser preservados. Por conseguinte, todos do povo que estiveram nas ruas e nas redes sociais nos últimos meses, não podem descuidar, um minuto sequer, do verdadeiro espírito de luta que motivou o ímpeto na defesa da democracia. Pudemos comprovar que o poder emana do povo, sendo assim, devemos exigir dos gestores e legisladores a transparência, a ética e a discussão das tomadas de decisões com o povo. Duvidar dos planos e propostas dos agentes públicos dividindo em tantas partes quantas necessárias o projeto, procurando simplificar para todos do povo o processo de visualização das intenções dos políticos para facilitar o entendimento, passa a ser nosso dever. A verdade deverá prevalecer sobre todas as coisas. Esta é a maneira mais segura para se obter certeza da verdade e não se admitir como verdadeiro tudo que vem com “cara de verdade”.

O método cartesiano consiste em quatro etapas ou regras: a) não aceitar nada como verdadeiro antes da análise crítica da razão; b) tudo o que for complexo deve ser dividido em tantas partes quantas necessárias para a completa visualização dos componentes e para facilitar o entendimento; c) após o processo da simplificação, conduzir por ordem os pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e indo aos mais complexos, sem se ater à ordem temporal; e, por último, d) numerar todas as partes e realizar revisões gerais, tantas quantas forem necessárias para assegurar de que nada foi omitido.

Logo, nossas emoções, nosso sentimento religioso, nossa ideologia política e todo nosso conhecimento empírico (estudos) adquirido ao longo da nossa existência, não podem, pelo menos na primeira análise, interferir nas nossas decisões. Agindo assim, o cidadão abstrai um pensamento mais seguro em relação à verdade, guiado exclusivamente pela razão. Por uma razão crítica, e, livre para tirar as próprias conclusões.

Creio que a prosperidade de uma nação, bem como, a felicidade do povo passa pelo desenvolvimento humano (melhor educação, melhor saúde, menores índices de criminalidade, etc.). O povo brasileiro – ao menos aqueles que estavam comprometidos com a proteção da democracia – deu uma lição de civilidade, respeito e patriotismo dignos de elogios. O governante deverá governar para todos igualmente, sem polarização. Todos os brasileiros devem ter a certeza de contar com instituições inclusivas, sistemas de leis e mercados que asseguram direitos e liberdades básicas de forma que possam beneficiar a si mesmos e também aos outros por meio de suas habilidades. Não há assunto de interesse público que seja desinteressante. O que poderá ocorrer são pessoas desinteressadas dos assuntos relativos às coisas públicas. Portanto, fiquemos atentos.

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Advogado no Paraná

Professor do Curso de Direito da UNIPAR

iraja@prof.unipar.br