Direito em Debate

Helton Kramer Lustoza

A crise Ética na sociedade brasileira

21/04/2019 07H45

O ser humano desde o seu surgimento, sempre foi cercado por preceitos e valores, sendo que por esses elementos se julgava o caráter de um homem. Por isso, é possível verificar que pela adoção do sentimento ético, busca-se a prática do bem e repulsa ao mal, visualizando a simpatia ou o menosprezo da boa ou má conduta de outrem. Essa repulsa pelo mal comportamento reflete-se por uma censura de conduta, por ter sido violado a ordem que se considerava boa ou aceitável pelo meio social.

Em vários momentos podemos nos deparar com algumas reflexões sobre esta problemática, tentando achar a gênese, e o porquê, em tão pouco tempo se agravaram tanto as relações humanas, ampliando os vazios da insegurança pública e privada dos cidadãos. Em vários momentos é possível notar que as pessoas não se sentem mais satisfeitas pelos atos honestos que praticam, fazendo com que a sociedade gire em torno dos poderes econômicos/políticos e verdades fictícias.

No Jornal da Tarde, Denise Frossard, denunciou que “(…) a corrupção leva o cidadão a perder a fé nas suas instituições e quando isto acontece, ele se torna cínico ou rebelde. E isto é um golpe de morte na democracia e na estabilidade que ela significa”. São situações assim que ensinam a população aplaudir os golpistas, pelo sucesso das gestões públicas, transformando-os em líderes de uma sociedade adoentada e sem forças próprias para escapar do “coma político”.

Grande parte dos estudiosos do assunto defende uma rápida reação, mas admitem que as consequências só surtirão efeitos nas próximas gerações, sendo que uma das medidas inadiáveis seria mudar o sistema educacional brasileiro. Basta analisar quem é o alunado brasileiro atualmente: as estatísticas divulgadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) demonstram o caos que está a educação brasileira, com faculdades de “fachada” e alunos do ensino fundamental e médio sem o mínimo de conhecimento.

O resultado é de que uma parcela significativa dos estudantes brasileiros (evitando generalizações indevidas) não sabem estudar, porque já vieram de um sistema educacional básico ruim, sem o mínimo necessário de exigência de conhecimento. Este problema irá resultar em profissionais despreparados para enfrentar os problemas sociais, que se tornam cada vez mais complexos.

E a cada dia fica mais claro que o despreparo e a falta de mecanismos rígidos no sistema educacional brasileiro, aliado à ausência de políticas públicas de base, compromete o sentimento ético da sociedade. Em outras palavras, quanto menos investirmos na formação educacional dos jovens, mais fácil de existirem desvios éticos dos cidadãos.

É importante que haja uma reflexão sobre tais problemas, seguido de uma reação autenticamente sadia, com o objetivo de corrigir os graves e frequentes desvios que se manifestam no agir das pessoas.

Reflitam comigo: de um modo geral as pessoas constantemente são moldadas pela mídia e redes sociais, afastando a crítica popular dos assuntos de relevância política e social. É comum presenciar debates sobre futebol, big brother, carnaval e similares, em detrimento de assuntos relevantes para a sociedade. Somado a isto, os cidadãos não estão preparados para compreender os direitos previstos na Constituição Federal, e tampouco conseguir colocá-los em prática. O que torna necessário repensar em inserir matérias como cidadania, economia e direito constitucional na grade curricular do ensino fundamental e médio, uma vez que é essencial as pessoas conciliarem os deveres com os direitos. Respeitando opiniões contrárias, entende-se que inserir tais temáticas na educação de crianças e jovens é um passo primordial para a construção de um espírito de cidadania e formação ética da sociedade brasileira.

O desconhecimento por parte do alunado brasileiro acerca de temas como cidadania, economia, direitos e deveres, é a principal causa da alienação dos indivíduos. E se o sistema educacional atual não forma cidadãos – na plenitude do conceito -, não se pode esperar um quadro político e social diferente. E freqüentes desvios que se manifestam no agir das pessoas.

Helton Kramer Lustoza

Procurador do Estado

Professor do Curso de Direito da UNIPAR

www.heltonkramer.com