Colunistas

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

A conduta negligente do homem contemporâneo e o risco da sobrevivência do homem do futuro

19/01/2019 13H56

Somos hóspedes do presente, mas viajamos em direção ao futuro. (E. Rojas)

Jean-Paul Sartre, adepto da teoria do existencialismo, analisa o mundo como sendo povoado por seres e objetos que possuem em si, a sua essência. Ele exemplifica que um objeto possui uma essência definida e não tem consciência de si nem do mundo. Ele somente existe. Por outro lado, existe o ser humano. Este conhece a si mesmo e tem consciência da sua existência. Esta é para Sartre outra forma de ser, que ele chamou de existência para si. O para si é o que não tem existência definida, mas se define a cada instante. O definido é somente o seu passado, o qual ele não pode mudar. Mas no presente é ele quem define a sua essência, isto é, fazer de si e para si o que quiser. E neste caso o existencialismo apresenta o postulado que nesta visão a “existência precede a essência”.

Peço licença para transcrever uma carta do homem do futuro (Léo in Crónica de Los Tiempos): “Ano de 2070. Acabo de completar 50 anos, mas a minha aparência é de alguém de 85 anos. Tenho sérios problemas renais porque bebo pouca água. Creio que me resta pouco tempo. Hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade. Recordo quando tinha 5 anos. Tudo era muito diferente. Haviam muitas árvores nos parques. As casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro por aproximadamente uma hora. Agora usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele. Antes todas as mulheres mostravam suas formosas cabeleiras. Agora, raspamos a cabeça para mantê-la limpa sem água. Antes meu pai lavava o carro com a água que saia de uma mangueira. Hoje os meninos não acreditam que utilizávamos a água dessa forma. Recordo que havia muitos anúncios para cuidar da água, só que ninguém lhes dava atenção. Pensávamos que jamais a água poderia terminar. Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aquíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados. Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados. As infecções gastrointestinais, enfermidades da pele e das vias urinárias são as principais causas de morte. A indústria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam os funcionários com água potável em vez de salário. Os assaltos por um litro de água são comuns nas ruas desertas. A comida é 80% sintética. Antes a quantidade de água ideal para se beber era oito copos por dia, por pessoa adulta. Hoje só posso beber meio copo. A roupa é descartável, o que aumenta grandemente a quantidade de lixo. Tivemos que voltar a usar as fossas sépticas como no século passado porque a rede de esgoto não funciona mais por falta de água. A aparência da população é horrorosa: corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele pelos raios ultravioletas que já não tem a capa de ozônio que os filtrava na atmosfera. Com o ressecamento da pele uma jovem de 20 anos parece ter 40. Os cientistas investigam, mas não há solução possível. Não se pode fabricar água, o oxigênio também está degradado por falta de árvores o que diminuiu o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se a morfologia dos gametas de muitos indivíduos. Como consequência, há muitas crianças com insuficiências, mutações e deformações. O governo até nos cobra pelo ar que respiramos: 137 m³ por dia por habitante adulto. Quem não pode pagar é retirado das ‘zonas ventiladas’, que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar. Não são de boa qualidade, mas se pode respirar. A idade média é de 35 anos. Em alguns países restam manchas de vegetação com o seu respectivo rio que é fortemente vigiado pelo exército. A água tornou-se um tesouro muito cobiçado, mais do que o ouro ou os diamantes. Aqui não há árvores porque quase nunca chove. E quando chega a ocorrer uma precipitação, é de chuva ácida. As estações do ano foram severamente transformadas pelas provas atômicas e pela poluição das indústrias do século XX. Advertiam que era preciso cuidar do meio ambiente, mas ninguém fez caso. Quando minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem, descrevo o quão bonito eram os bosques. Falo da chuva e das flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse. O quanto nós éramos saudáveis! Ela pergunta-me: Papai porque a água acabou? Então, sinto um nó na garganta! Não posso deixar de me sentir culpado porque pertenço a geração que acabou de destruir o meio ambiente, sem prestar atenção a tantos avisos. Agora, nossos filhos pagam alto preço… Sinceramente, creio que a vida na Terra já não será possível dentro de muito pouco tempo porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível. Como gostaria de voltar atrás e fazer que toda a humanidade compreendesse isto… enquanto ainda era possível fazer algo para salvar o nosso planeta Terra!

Planejar a vida, desenhá-la, dar-lhe fronteiras, encurtá-la, traçar seus contornos e logo sobre ela caminhar: esse deve ser o objetivo para chegarmos a nós próprios, para sermos indivíduos, pessoas, sujeitos com uma identidade clara, homens não massificados.

Sartre nos ensina que as nossas escolhas cabem somente a nós e não há fator externo que justifique nossas ações. E isso torna o ser humano o único responsável por seus atos e escolhas. É o ser humano que define o seu futuro. E no centro do humanismo está a convivência com os outros. Por conseguinte, não se pode deixar de pensar na qualidade de vida das futuras gerações.

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Advogado no Paraná

Professor do Curso de Direito da UNIPAR

iraja@prof.unipar.br