Dr. Eliseu Auth

Eliseu Auth

Um libelo contra o genocídio

28/07/2020 07H14

Diz a história que Adolf Eichmann, não foi dos principais criminosos nazistas. Mas cuidou da logística do ajuntamento de milhares de judeus nos campos de concentração de Auschwitz, Chelmno, Belzec, Sobibor, Treblinka e Majdanek. Assim foi um elo decisivo na engrenagem genocídio hitlerista.

Finda a segunda guerra conseguiu fugir para Buenos Aires. Lá, viveu com o falso nome de Ricardo Klement, até ser capturado por agentes secretos de Israel. Levado a julgamento em Jerusalém, foi processado, condenado e enforcado pouco antes da meia noite de 31.05.1962. No processo alegou inocência e se dizia mero burocrata e executor de ordens superiores. Negava co-autoria nas milhares de mortes do holocausto e pediu absolvição. Não adiantou. Edson Vasconcelos descreveu o libelo do Procurador-Geral de Israel Gideon Hausner, como peça de forte apelo retórico e 15 fatos criminosos:

“Quando compareço perante vós, juízes de Israel, para apresentar as acusações contra Adolf Eichmann, não estou sozinho. Junto a mim, há seis milhões de acusadores. Mas, eles não podem se colocar de pé e apontar ao homem no banco dos réus para acusá-lo com os próprios lábios. São, agora, cinzas no alto das colinas de Auschwitz e nos campos de Treblinka, espalhadas nos bosques da Polônia. Suas sepulturas estão disseminadas por toda a Europa. Seu sangue grita, mas sua voz foi silenciada. Agora falarei por eles. Em seus nomes, apresentarei esta terrível petição de condenação.”

Ao fim dos debates veio a condenação à morte numa sentença de 180 páginas. Houve apelo à Suprema Corte e pedido de clemência ao chefe de Estado Ben Gurion. tudo negado. O corpo foi cremado e as cinzas jogadas no mar Mediterrâneo, longe das águas israelenses. A história não perdoa. Mais que um libelo contra Adolf Eichmann, foi um libelo contra o genocídio.

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).