Umuarama

INFORME UEM AGRÍCOLA

Recomendação adequada de corretivos de acidez do solo garante otimização do processo produtivo

26/07/2020 08H53

Prof. Dr. Antonio Nolla

Eng. Agrônomo com mestrado, doutorado e pós-doutorado em Ciência do Solo

Depto de Ciências Agronômicas, UEM – Umuarama

anolla@uem.br

A metodologia de recomendação de calagem foi desenvolvida para o sistema de cultivo convencional e a aplicação de calcário objetiva elevar o pH do solo até 6,0. Essa recomendação tem sido utilizada com alterações para o sistema plantio direto. No entanto, este sistema de preparo e cultivo do solo apresenta mínima mobilização do solo, acúmulo superficial de matéria orgânica e nutrientes (fósforo e cálcio), e menor toxidez do alumínio no solo. De maneira geral, tem sido observados rendimentos adequados após longos períodos sem reaplicação recente de calcário, em solos com pH baixo e alumínio trocável alto. Isso indica a possibilidade de redução da dosagem de calcário a ser aplicada para restabelecer a capacidade produtiva no sistema plantio direto, justificada pela existência de lavouras que apresentam pH em água de 5,3 e com alto rendimento. Muitas vezes em sistemas sob plantio direto consolidado (mais de 5 anos de sua implantação e manutenção), o uso de corretivos de acidez pode ser a metade recomendada para sistemas convencionais sob mesmas condições, com manutenção da otimização da capacidade produtiva das plantas.

Outro problema refere-se à camada de amostragem do solo. A amostragem do solo representa o ponto inicial, crítico e determinante para que todo um conjunto de atividades básicas que compõe o sistema de recomendação de corretivos seja corretamente utilizado. Inadequadamente interpretado, ocasionará grandes prejuízos ao agricultor. No sistema convencional, deve ser efetuada a amostragem na camada de 0-20 cm. Porém, a metodologia de amostragem para o sistema de semeadura direta recomenda amostrar o solo na camada de 0-10 cm para a decisão e determinação da necessidade de calcário a ser aplicada. Assim, se uma amostra de solo em sistema plantio direto é retirada na camada arável de 0-20 cm de profundidade, da mesma forma como recomendada para o sistema convencional, não representa o estado real de fertilidade do solo, pois o efeito do calcário aplicado na superfície do solo se dá na camada de 0-10 cm e as camadas inferiores (10-20 cm) apresentam uma maior acidez e menor concentração de nutrientes, indicando de forma incorreta a necessidade de calagem.

            Após a amostragem de solo ter sido realizada de forma adequada, o próximo passo refere-se à interpretação do laudo análise do solo, gerado a partir do laboratório no qual o agricultor ou engenheiro agrônomo encaminhou sua amostra de solo. A interpretação compara os resultados dos atributos químicos e granulométricos do solo com valores padrões de referência, e estabelece a dosagem adequada de calcário a ser aplicada para restabelecer o potencial produtivo da área.  

            A recomendação de corretivo a ser adicionada deverá ser realizada pelo menos 30 dias antes da semeadura, para garantir que o calcário reaja e aumente o pH e disponibilize nutrientes (Ca e Mg) necessários para o crescimento das plantas. A escolha do calcário é outro fator importante, pois os corretivos apresentam diferenças quanto ao PRNT. Geralmente para culturas anuais, é desejável o uso de calcário com PRNT acima de 75%, o que indica garantia de reação em 3 meses de 80% do calcário aplicado. Para culturas perenes, pode ser utilizado calcário com PRNT de até 65%, o que garante a reação do produto alguns anos após a aplicação, o que amplia o período de nova aplicação do insumo. Para o sistema convencional, é efetuada a aplicação de calcário, com posterior incorporação através do uso de arado e grade. Para o sistema plantio direto, a aplicação é feita na superfície do solo, sem incorporação, ou seja, a reação do calcário se limita à camada superficial (0-10 cm).

A aplicação de calcário resulta na liberação oxidrilas (OH) capazes de neutralizar os prótons (H+) presentes na solução do solo. As bases (OH) reagem com o Al+3 e o H+ presentes no solo, neutralizando o alumínio fitotóxico, e promovem elevação do pH do solo. Além da neutralização da acidez, a calagem proporciona aumento da concentração de cálcio e magnésio em solução, criando condições adequadas para o crescimento normal das culturas. Dessa forma, de forma indireta, o efeito do calcário proporciona maior aprofundamento do sistema radicular, o que proporciona uma maior absorção de água e nutrientes, otimizando o crescimento das plantas e maximizando a produtividade das culturas. Entretanto, doses excessivas de calcário podem vir a causar problemas. O aumento de pH acima de 6,0-6,5, fruto da aplicação de excessiva do calcário, pode vir a reduzir a disponibilidade de nutrientes por volatilização (N), lixiviação (N e K) e por retrogradação (P).

Como fonte de nutrientes, o calcário libera o cálcio e magnésio, nutrientes essenciais para o desenvolvimento normal das plantas. O cálcio é responsável pela integridade da membrana celular, sustentação e atua como ativador enzimático e responsável pela seletividade na absorção radicular de nutrientes. O magnésio, por sua vez, é essencial para o funcionamento normal do aparato fotossintético, além de contribuir para a ativação enzimática. Por isso, o calcário age na melhoria do aprofundamento radicular, na absorção correta de nutrientes, o que contribui para um bom desenvolvimento da parte aérea das culturas, promovendo melhorias na produtividade das plantas de interesse comercial.

Após 3- 5 anos da aplicação de calcário, uma nova amostragem da lavoura deve ser feita, para que seja avaliada a necessidade ou não de reaplicação de calcário. Esse monitoramento da condição química do solo garante a manutenção de altos rendimentos, promovendo a maximização da lucratividade do processo produtivo.