Direito em Debate

Helton Kramer Lustoza

O advogado pode ser substituído por robôs?

21/07/2019 07H02

Helton Kramer Lustoza

Atualmente se verifica um conflito no exercício profissional da advocacia da era digital com o modelo tradicional. Em uma pesquisa, a LawGeex, startup de tecnologia jurídica, desafiou 20 advogados experientes a testar suas qualificações em face de um programa de computador desenvolvido pela empresa. Em termos de velocidade na realização do trabalho, o resultado foi totalmente favorável à inteligência artificial, sendo que o software revisou cinco contratos em apenas 26 segundos, enquanto os advogados humanos levaram 92 minutos para concluir a tarefa.

Tempos atrás chegou-se a anunciar na impressa que teria sido criado um chamado “robô-advogado” pela startup canadense Ross Intelligence dentro da Universidade de Toronto. Por meio da plataforma da IBM, o sistema era capaz de rastrear mais de 10 mil páginas por segundo e formular respostas rápidas.

Mas a dúvida é se o exercício da advocacia poderá futuramente ser substituída por robôs?

A dúvida não se aplica somente à advocacia, mas várias profissões estão passando por transformações em razão das mudanças tecnológicas, correndo o risco de serem extintas. O Relatório sobre o Futuro do Trabalho do Fórum Econômico Mundial prevê que, embora as tecnologias devam provocar perdas de emprego, haverá a compensação com a criação de novos empregos. A previsão é de que, até 2022, serão criados 133 milhões de empregos, nas 10 profissões que vão mais crescer, como por exemplo: Analistas e cientistas de dados, Especialistas em IA e aprendizagem de máquina, Desenvolvedores e analistas de softwares e aplicativos, Profissionais de venda e de marketing, etc. Por outro lado, poderão ser extintas, profissões como: técnicos de contabilidade e de folhas de pagamento, trabalhadores de fábricas e montadoras, pessoal de atendimento ao consumidor, funcionários do Correio, etc.

Em entrevista ao CONJUR, David Wilkins, vice-reitor da Faculdade de Direito de Harvard, afirmou: “pensam que advogados vão virar robôs, que não haverá mais espaço para o tipo de habilidades e serviços que oferecem. Até onde a gente sabe, a advocacia vai continuar um negócio de capital humano”. Explica o professor americano que realmente a tecnologia está revolucionando o trabalho que fazemos e como o fazemos, mas a situação não é de desespero, mas sim de adaptação.

Esse choque de culturas é absolutamente normal, pois estamos passando por um tempo em que as mudanças tecnológicas estão interferindo na maneira como trabalhamos, consumimos e nos relacionamos. Enquanto tempos atrás estávamos acostumados a esperar o lançamento de uma música em CD e alguma doutrina na publicação de um livro, atualmente todas estas informações podem facilmente ser encontradas no mundo virtual de uma forma muito mais rápida.

A inteligência artificial e a automação vêm transformando vários setores do ambiente econômico, através do qual robôs substituem humanos em diversas tarefas. Essas mudanças tecnológicas estão influenciando cada vez mais o exercício de várias profissões, ocasionando o surgimento de novas carreiras, o uso de tecnologias para acelerar tarefas que levavam horas e até mesmo novos modelos de cobrança são alterações já perceptíveis no dia a dia das empresas.

Embora a Advocacia tenha passado por esta revolução tecnológica, com a introdução de novas plataformas virtuais, como a criação de processos judiciais eletrônicos, acompanhamento de julgamentos dos Tribunais Superiores em tempo real, ainda visualizamos algumas resistências na seara educacional e profissional. Ao invés de fechar os olhos da realidade, é preciso incluir na formação dos futuros advogados a compreensão de que a tecnologia já mudou e vai mudar ainda mais a prática do Direito. Não será necessário competir com a inteligência artificial, sendo que o mais sensato seria se adaptar e aproveitar as vantagens de sua existência para otimizar a atividade que será desenvolvida.

As pessoas se preocupam que os profissionais devam trabalhar como robôs para manter seus empregos, competindo em termos de velocidade com as máquinas. Desta forma, certamente seria uma guerra perdida! Para aqueles que pensam que advogados vão virar robôs, que não haverá mais espaço para o tipo de habilidades e serviços que oferecem, estão enganados. A advocacia vai continuar sendo uma atividade intelectual dependente da racionalidade humana, onde necessitará do recrutamento de bons profissionais com alta qualidade. Ocorre que para oferecer um serviço com qualidade, o profissional terá que entender a tecnologia como um instrumento necessário para o seu trabalho.

Uma coisa é certa: a inteligência artificial, os robôs, a transformação digital e outras tantas tecnologias já invadiram o mercado de trabalho, resta ao profissional se adaptar e trazer este arsenal a seu favor.

Helton Kramer Lustoza

Procurador do Estado

Professor do Curso de Direito da UNIPAR www.heltonkramer.com