Política

Acusados

Ex-governador Beto Richa, esposa Fernanda, o irmão Pepe e aliados são presos em operação do Gaeco em Curitiba

11/09/2018 22H23

O ex-governador do Paraná Beto Richa, atual candidato ao Senado pelo PSDB, foi preso temporariamente na manhã desta terça-feira (11) por suspeita de fraude em licitação de obras de estradas rurais no estado. Na ação feita a pedido do Gaeco (grupo de combate ao crime organizado) do Ministério Público do estado, também foram presos a mulher dele, Fernanda Richa; o irmão de Richa e ex-secretário de Infraestrutura, Pepe Richa; o ex-chefe de gabinete, Deonilson Roldo; e o ex-secretário Ezequias Moreira.

Ao todo, 15 pessoas foram alvo de mandados de prisão temporária, ordenados pela Justiça Estadual do Paraná –no mesmo dia, a gestão de Richa também foi alvo de nova fase da Operação Lava Jato. As prisões atingem figuras-chave no entorno do tucano, que estava em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto para o Senado no Paraná, com 28%, segundo o último levantamento do Ibope.

Fernanda Richa era um dos principais cabos eleitorais do ex-governador. Ex-secretária da Família, era popular nas periferias e entre populações atendidas pelo governo.
Pepe Richa comandou a superpasta da Infraestrutura, que reuniu Transportes, DER (Departamento de Estradas de Rodagem) e a superintendência do Porto de Paranaguá.
Roldo, por sua vez, que também foi alvo de um mandado de prisão preventiva na Lava Jato nesta terça, era considerado o homem-forte do ex-governador e um de seus principais articuladores políticos.

O procurador Leonir Batisti, coordenador do Gaeco, negou que a data de deflagração da operação tenha sido intencional. “Não há vedação legal para fazer investigação no período eleitoral”, afirmou. “Não podemos parar os trabalhos por motivos dessa natureza.”
A lei eleitoral prevê que, a contar de 15 dias antes da eleição, os candidatos só sejam presos em caso de flagrante. Esse prazo passará a valer apenas no dia 22 de setembro.
O ex-governador tucano é suspeito de ter participado de fraudes no programa Patrulhas do Campo, de recuperação e abertura de estradas rurais no interior do estado.
“É aquele padrão: licitação dirigida, pagamento de propina e eventual lavagem de dinheiro”, afirmou Batisti.

O Patrulhas do Campo cedia máquinas como escavadeiras, tratores e motoniveladoras a municípios do interior, para a abertura e manutenção de estradas rurais.
Pelo menos 2.000 km de estradas foram recuperados ou abertos por meio do programa desde a primeira gestão de Richa, que governou o Paraná entre 2011 e 2018.
Os crimes teriam sido cometidos entre 2012 e 2014, de acordo com o Gaeco.
Entre os alvos de prisão também estiveram empresários -incluindo Joel Malucelli, suplente do senador e candidato à Presidência pelo Podemos, Alvaro Dias, mas que estava em viagem a trabalho na Itália. Ele negou envolvimento em irregularidades.

A investigação apura os crimes de fraude à licitação, corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça. As prisões são temporárias e valem por cinco dias, que são prorrogáveis. O processo corre em segredo de Justiça.

Em outra investigação, a gestão de Richa foi alvo nesta terça de nova etapa da Lava Jato, conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, batizada de Operação Piloto –em referência a suposto apelido do tucano na planilha de propinas da empreiteira Odebrecht.
Os investigadores negaram que tenham combinado as duas operações desta terça. “Embora ninguém vá acreditar, foram independentes”, disse Batisti, do Gaeco. “Foi uma mera coincidência”, afirmou o delegado Felipe Hayashi, da PF.

O tucano e membros de sua família foram alvos de mandados de busca e apreensão da PF. Houve mandados de prisão contra Deonilson Roldo, ex-chefe de gabinete de Richa.
A investigação mira pagamentos indevidos de pelo menos R$ 3,5 milhões, em espécie, para obras da rodovia PR-323. Segundo a Procuradoria, o valor foi pago em 2014 pela Odebrecht em troca do direcionamento da licitação. Roldo é apontado como “o principal operador do esquema de arrecadação de recursos ilícitos de empresas fornecedoras do governo do estado”, escreveu o juiz Sergio Moro, em despacho.

O tucano Beto Richa é filho de José Richa (1934-2003), ex-governador do Paraná (1983-1986) e um dos fundadores do PSDB. Natural de Londrina (PR), Richa é formado em engenharia civil pela PUC-PR. Além do PSDB, já passou por PTB e PFL. Eleito prefeito de Curitiba em 2004 pelo PSDB, reelegeu-se em 2008 e deixou o cargo em 2010 para se candidatar, com sucesso, ao governo -sendo reeleito em 2014.

OUTRO LADO

A advogada Antonia Lélia Neves Sanches, que defende Richa, acusou o Ministério Público de “oportunismo” ao deflagrar a prisão em período eleitoral. “Não há vedação [legal]. Há oportunismo”, declarou. “Não há razão para esse procedimento, especialmente em período eleitoral.”

Sanches disse que o ex-governador está sereno e que sempre se dispôs a prestar esclarecimentos à Justiça. Ela deve entrar com um pedido de habeas corpus para libertá-lo. O advogado de Pepe Richa, Antonio dos Santos Junior, não quis falar, bem como a defesa do ex-secretário Ezequias Moreira. O defensor de Deonilson Roldo, Roberto Brzezinski Neto, disse que seu cliente sempre se colocou à disposição da Justiça e que jamais foi intimado para depor. Ele nega irregularidades. (Folhapress)