Karina M. Fernandes

16/10/2021

Está todo mundo mal?

15/10/2021 21H03

Jornal Ilustrado

De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), a saúde é definida por um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Logo, a ausência de saúde estaria ligada a algum tipo de mal-estar. Acontece que, nossa sociedade está inundada em mal-estares. Tanto que os instrumentos interventivos ficam aquém da agudeza e velocidade dos acontecimentos. Gostaria de lhes sugerir um desafio: olhe ao seu redor. Na fila de um banco, dentro do supermercado, na mesa ao lado da sua no restaurante. Todas as pessoas estão enfrentando algum tipo de luta interna e/ou externa. Todos submersos em seus mundos, cheios de problemas e preocupações. As dinâmicas sociais contemporâneas de organização do tempo, das vidas e do trabalho nos revelam: as fontes de produção de sofrimentos nas coletividades são múltiplas, os impasses e obstáculos são descomedidos. Todo mundo parece estar sofrendo à sombra de algum mal-estar. Porém, não podemos avaliar a vida pautada apenas pela ótica dos diagnósticos, como mal estamos acostumados, pois perderemos a razoabilidade de olhar para o outro. No conto O Alienista (1881), Machado de Assis tão logo coerente com o contexto atual, coloca em voga esta pauta quando questiona a busca incessante travada para o tratamento da loucura. Mas afinal, o que é ser louco e o que é ser normal? Se estivermos todos vivenciando crises internas e externas (nervosas, de tristeza, de raiva, financeira, de saúde, de violências…), somos então loucos? Aqui me valho de uma metáfora: quem nunca experienciou uma crise que atire a primeira pedra. Quem é cem-por-cento equilibrado o tempo todo? São muitos os mal-estares que cercam nossos modos de viver, então talvez a maior patologia seja a persecução da normalidade. Existem crenças bastante enraizadas segundo a qual tudo o que a maioria das pessoas sente, pensa ou faz deve ser considerado normal e, como se não bastasse, servir de guia comportamental. Um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar e agir aprovados por um maioria de pessoas é que podem ser patogênicas e letais. Se está todo mundo mal? Eu não sei. Mas que está tudo bem não estar sempre tudo bem, disso tenho certeza.

Att,

Karina M. F. Portella