Karina M. Fernandes

30/10/2021

Coluna Psi – A vida continua?

30/10/2021 10H34

Jornal Ilustrado
Karina M. Fernandes

A vida continua. Costumamos ressaltar esta premissa quando algo não sai como o planejado em nossas vidas. É a frase mais racional possível. E sim, a vida continua para quem tem a sorte de continuar vivo. Para quem nós perdemos, a vida não continuou. Para nós que ficamos, a vida existente antes da perda, não continua da mesma forma. O dia de finados, celebrado em muitas culturas e religiões, se aproxima. Uma data reservada principalmente para homenagear os entes queridos que já morreram. Falar sobre luto, morte, a finitude, pode ser encarado como um desconforto, mas não precisa e nem deve ser assim. Uma das metáforas mais coerentes que já ouvi sobre a morte é pensar que em algum dia, ao longo da vida, encontraremos um grande muro. O caminho da vida é trilhado, às vezes triste, às vezes alegre, cheio de curvas, paisagens bonitas, escalas e obstáculos. Mas quando estamos perto da morte, nos deparamos com um gigantesco muro. Não dá pra escalar, não tem volta. No final de qualquer história, de qualquer caminho, de qualquer escolha, há a morte. O que faz diferença nisso tudo é a paz que sentiremos ou não ao contemplarmos o muro, baseado em todas as escolhas feitas no decorrer do trajeto. Lori Gottlieb, autora do livro “Talvez você deva conversar com alguém”, acentua que a vida tem uma taxa de mortalidade de cem por cento. E, ainda assim, quando nos deparamos com a dura realidade das quase 600 mil mortes por Covid-19, é quase impossível não questionar a brevidade da vida, o fatídico encontro precoce com a citada muralha intransponível. Embrulha o estômago, faz frio nos ossos. A morte é intensa demais para quem fica. Mas a vida dá um jeito de nos manter vivos mesmo quando estamos morrendo de dor. A continuidade da vida fica em suspensão, embora o mundo não pare e nos empurre a prosseguir. Racionalmente entendemos que a vida tem que seguir, mesmo que saibamos que já não há tempo a viver com os entes queridos que se foram, mas há o tempo que passou, do passado podemos extrair forças para viver o presente e o futuro que nos aguarda. O trem da vida segue seu caminho e a nossa viagem continua, mesmo escorregando em lágrimas e apertos no peito vez ou outra, passaremos pelo túnel escuro e voltaremos a apreciar novamente as paisagens. Quando alguém que amamos se vai, uma parte deles segue viva com a gente e é justamente por meio desta percepção que precisamos nos reconstruir.